23 março, 2014

A Piada da Vida

Contos, Flávio VK - A Piada da Vida

Naquele instante, Odorico completou em si a sabedoria necessária para viver uma existência plena de realizações. Cabia numa frase, mas era tarde demais para ele... Quando o neto de dezesseis anos passou pela sala, mal notando sua eterna presença na poltrona inclinável diante da TV, soube então do seu dever:
- Cadu, venha cá. Seu avô precisa lhe dizer algo importante.
- Agora, vô?
- Melhor agora. Mais tarde pode ser tarde demais.
- É que eu marquei com uns amigos e...
A voz vinda da cozinha, sempre onisciente do que se passa na sala, interviu estridente:
- Carlos Eduardo! Senta agora nesse sofá e ouve o que seu avô tem pra te dizer. Passa o dia todo pra rua, o que custa passar um tempo com ele?
O neto ainda inclinou a cabeça para trás e bufou, antes de mirar o avô com olhos que, numa dicção quase perfeita, anunciavam: lá vem a nota oficial de todo o tédio do século passado... Do outro lado, ainda que os olhos miúdos estivessem desencontrados dos óculos, o anúncio foi nitidamente apreendido:
- Não, tudo bem, fica pra depois. Pode ir, Cadu, vai lá com seus amigos.
- Valeu, vô! – e bateu a porta.
O estrondo da batida fez uma lembrança de mais de sessenta anos se restaurar bem ali, vívida como se sobrepusesse ao próprio presente: o princípio de uma noite em que Odorico era então o jovem neto... Em menos de vinte minutos, haveria um baile. Haveria certa garota ruiva, que lhe inspirava sussurros, e talvez coragem para sussurrar enfim. Certo mesmo, só sua pressa cheia de expectativa – justificada no álibi de seu espírito jovem ainda em descompasso com a realidade. Diante do espelho, conferiu a roupa de gala, acabou de pentear os cabelos molhados para o lado de sempre e já ia saindo, quando seu então avô surgiu. Imponente, o velho cravou a bengala entre ele e a porta. Havia algo a ser dito. Sob o grave bigode, a pequena porção de lábios à vista parecia guardar um segredo absurdo, tensos como nunca antes - percebia agora. E, percebido, percebeu mais, indícios do mesmo fardo de sabedoria que, há pouco, obtivera. Sim, esta havia sido a tentativa de seu avô transmiti-la a quem não fosse tarde demais, ao neto, ele, Odorico! Mas foi também com pouco caso que ele acabou se evadindo do avô. Correu porta afora, conforme a tradição.
Acreditando ser o final da lembrança, Odorico lamentava-a pela primeira vez. A lembrança, no entanto, seguiu em frente: desacelerada, minuciosa, atenta ao que deixava para trás. E, antes que a porta se pusesse toda entre o avô e ele, entre o que foi e o que está sendo, um enigmático olhar desse avô o atingiu, sem nada significar até hoje...
De volta ao tempo presente, Odorico estava agora do lado de dentro da porta batida. Seus olhos, enfim, ecoavam a solução daquele enigma:
- Vai, vida, fode com mais esse pirralho insolente.

08 setembro, 2013

Assalto



Nada pessoal, a princípio
Era quem estava mais perto
Não busco justiça no ofício
Mas acho que vim incompleto
Além de toda minha tez
Tua presença me refez
Faltando algo qualquer
Um incessante talvez                                                                    
Um oquevocêpuder
Sem forma nem necessidade
Não roubo porque preciso
(talvez pra nunca precisar)
Roubo por capricho
Por revolta
Por vontade
Roubo um beijo pela metade
Pra outra metade me retomar

Não espere pelo tiro
Na mira do rifle: minha alma
Só quero o que te inspiro

20 novembro, 2012

Quem sou eu?

tirinhas - eumesmoquefiz: quem sou eu

15 novembro, 2012

Robert Pattison ama mais do que eu

robert pattison ama mais do que eu

O vampiresco galã, Robert Pattison, traído...
Vi a notícia e só pude pensar: ninguém está a salvo. Jovem, bonito, sex symbol, famoso, quase uma unanimidade, não faltaria ao sujeito as mais deslumbrantes mulheres mesmo que ele desejasse uma diferente a cada minuto. Ainda assim, acabou vítima do terror dos relacionamentos monogâmicos. Até ele.
Se a traição dos outros já é imperdoável, vindo de figuras públicas é também insaciável. Esperamos pela notícia do troco do rapaz, um flagra com uma nova mulher, quem sabe, mais deslumbrante que Kristen Stewart... Mas a notícia não veio. Quando veio, era da reconciliação. Corno manso, já vociferavam os machos alfa de plantão, as pessoas de bem, infalíveis em sua moralidade, todos irremediavelmente indignados. Houve raiva, houve pena, piadas prontas e uma indisfarçável superioridade ao galã que perdoou: "ah!, se fosse comigo..."
Mas não foi.
E por não ter sido comigo, com você, com qualquer outro, mas sim com Robert Pattison, o perdão me pareceu emblemático. Pois o vampiresco galã segue podendo ter a mulher que quiser. Ainda assim, escolheu ela: Kristen Stewart. Perdoou, acreditou, se convenceu de que era, apesar de tudo, ainda amor - maior dádiva do mundo - e não se abre mão disso por causa de algo tão ínfimo. E ínfimo não é o erro por ela cometido, mas o sentido das regras amorosas vigentes. Quem disse que traiu porque ama menos? É traição um desejo que vai além do outro? Não era amor, ainda, depois de tudo?
Não me entendam mal. Longe de mim querer me por acima de vocês que não fariam o mesmo, eu provavelmente também não o faria. Sou desses egocêntricos possessivos incorrigíveis que deixam de amar por muito menos. Apesar de aderir ao relacionamento monogâmico quando o vejo incompatível com o ideal de amor... apesar de saber tão bem distinguir o desejo do amor, quando me convém... apesar desse amor sempre recair sobre humanos, esses seres tão encantadoramente imperfeitos, falhos, feios mesmos quando vistos de modo implacável, e cheios de vontades que se contradizem a todo momento... Apesar de tudo, continuo voltando à loja depois de meses, anos, sem cerimônia, pra devolver ou trocar o produto: moça, não serviu.

Tão pequeno, mesquinho e substituível como se mostra acima, o que a acabo de chamar de amor é logicamente bem questionável. Mas o que, no mundo, anda se chamando de amor? Da minha parte, cogito não saber ainda o que é amor. Talvez ninguém saiba, talvez o amor seja mesmo essa coisa pequena, mesquinha, substituível, e andamos exigindo muito dele (ou pouco de nós). Definições sobre o amor à parte, neste momento é em outro ponto que quero chegar. O fato que é que não sinto nem raiva, nem pena, nem indignação diante de Robert Pattison, muito pelo contrário. Sinto-me inferior. Derrotado, confesso: Robert Pattison ama mais do que eu.